Quando uma pessoa ouve falar sobre psicodélicos e enteógenos, uma das primeiras perguntas que surge é:

"Isso pode causar dependência?"

Essa pergunta é natural.

Afinal, muitas pessoas associam qualquer substância capaz de modificar a percepção ou a consciência ao risco de dependência química.

Entretanto, a ciência demonstra que diferentes substâncias possuem diferentes mecanismos de ação e diferentes relações com o cérebro humano.

Algumas substâncias apresentam elevado potencial de dependência física e psicológica.

Outras produzem experiências profundas de alteração da consciência, mas apresentam características farmacológicas e comportamentais diferentes.

Por isso, compreender essa questão exige abandonar simplificações.

O que é dependência?

A dependência é um fenômeno complexo que envolve aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Ela não representa apenas o consumo repetido de uma substância.

Envolve principalmente uma relação de perda de autonomia diante daquele comportamento.

Entre os aspectos frequentemente observados estão:

A dependência envolve mecanismos cerebrais relacionados à aprendizagem, recompensa, memória e comportamento.

Dependência física e dependência psicológica

Dependência física

A dependência física acontece quando o organismo passa por adaptações diante da presença frequente de determinada substância.

Com a interrupção, podem surgir alterações fisiológicas relacionadas à abstinência.

Algumas classes de substâncias apresentam maior capacidade de produzir esse tipo de adaptação.

Dependência psicológica

A dependência psicológica está relacionada à ligação emocional e comportamental estabelecida com determinada substância ou experiência.

Pode envolver:

Nesse contexto, a questão principal não é apenas a substância.

É a relação construída pelo indivíduo com ela.

Por que algumas substâncias causam

dependência?

O potencial de dependência está relacionado a diversos fatores:

Substâncias diferentes produzem experiências diferentes no cérebro.

Por isso, não é adequado tratar todas as substâncias psicoativas como se funcionassem da mesma maneira.

Psicodélicos causam dependência física?

Os chamados psicodélicos clássicos, como psilocibina e LSD, apresentam características diferentes de substâncias tradicionalmente associadas a altos índices de dependência.

As pesquisas disponíveis indicam que eles não apresentam o mesmo padrão de dependência física observado em algumas outras classes de substâncias.

Outro aspecto estudado é a rápida adaptação de tolerância.

Ou seja, o uso repetido em curto espaço de tempo tende a reduzir a intensidade dos efeitos percebidos.

Esse fenômeno é diferente dos padrões observados em substâncias que estimulam ciclos intensos de repetição compulsiva.

Mas podem causar dependência psicológica?
Essa é uma questão mais profunda.

Embora algumas pesquisas apontem baixo potencial de dependência física em determinados psicodélicos, qualquer experiência humana significativa pode adquirir diferentes significados psicológicos.

Uma pessoa pode desenvolver uma relação inadequada com qualquer experiência quando ela passa a ser utilizada como:

Por isso, o foco não deve estar apenas na substância.

Deve estar na relação estabelecida com a experiência.

Experiência profunda versus compulsão

Uma experiência ampliada de consciência pode favorecer:

Mas uma experiência transformadora é diferente de um comportamento compulsivo.

A compulsão busca repetição para aliviar desconfortos imediatos.

A transformação busca integração e mudança na vida cotidiana.

O papel do contexto

Dentro das pesquisas com psicodélicos existe um conceito fundamental:

Set e Setting

Ele representa a interação entre:

Set

O estado interno da pessoa.
Inclui:

Setting

O ambiente onde a experiência acontece.
Inclui:

O contexto influencia profundamente a experiência.

A mesma substância pode produzir resultados muito diferentes dependendo da preparação, do ambiente e da integração posterior.

O risco do uso sem integração

Uma experiência profunda pode trazer conteúdos importantes sobre a própria história.

Entretanto, sem integração, existe o risco de que aquilo permaneça apenas como uma experiência marcante, sem gerar mudanças concretas.

A experiência não substitui:

O valor está na capacidade de transformar percepção em ação.

Enteógenos, psicodélicos e desenvolvimento humano

Dentro da visão do Instituto, essas ferramentas não são compreendidas como soluções mágicas.

Elas são estudadas como possíveis instrumentos de investigação da consciência humana.

Seu potencial está relacionado à possibilidade de favorecer:

Porém, a mudança acontece quando aquilo que foi compreendido é incorporado à vida.

A perspectiva do Instituto

O Instituto de Terapia Integrativa Robson M. Nonato trabalha a partir de três pilares:

Conhecimento

Compreender ciência, mecanismos e limites.

↓

Responsabilidade

Respeitar legislação, ética e segurança.

↓

Integração

Transformar experiências em desenvolvimento humano.

O papel do IPEBH

O Instituto de Pesquisa de Enteógenos para Benefício da Humanidade (IPEBH) possui como proposta contribuir para estudos relacionados aos estados ampliados de consciência.

As pesquisas buscam compreender:

Sempre considerando:

Uma nova compreensão sobre dependência

Talvez a pergunta mais profunda não seja apenas:

"Essa substância causa dependência?"

Mas:

"Qual relação o indivíduo está construindo com essa experiência?"

Porque qualquer ferramenta pode ser utilizada de maneiras diferentes.

O conhecimento permite uma relação mais consciente.

Conclusão

Enteógenos e psicodélicos não devem ser compreendidos através de extremos.

Nem como substâncias completamente isentas de riscos.

Nem como elementos automaticamente perigosos.
A compreensão madura exige considerar:

A questão central não está apenas na substância .

Está na relação estabelecida entre pessoa, experiência e propósito.

Quando existe consciência, preparação e integração, uma experiência profunda pode se tornar uma oportunidade de aprendizado e transformação.